domingo, 15 de novembro de 2009

nada muda

não suporto mais ouvir sobre democracia, ações afirmativas, direitos e garantias do indivíduo...

coisa chata do caralho. desde 1789 virou moda criar direito de tudo o que é tipo, já são várias gerações desses bastardinhos.

o que são além de desejos, pretensões? quando a Lei estabelece direito à liberdade, à igualdade ou à dignidade, significa apenas que o senso comum deseja isso.

acontece que podemos aspirar a tudo, podemos criar dispositivos legais dizendo que todos têm direito a uma praia na porta de casa, mas e daí?

o cumprimento dessas pretensões costuma ser assegurado por duas maneiras: imposição de deveres e proibição de condutas.

se tenho direito a receber algo, alguém tem obrigação de dar; se temos direito à vida, a nós é proibido o assassinato.

e o que assegura o cumprimento dos deveres e proibições? ah, meu bem, a boa e velha punição.

odeio quem encara a criação de direitos como um avanço incontestável e os trata feito categorias ontológicas, substantivos tão sólidos e concretos como esta cadeira em que estou sentado.

no fim, são um amontoado de palavras que só adquirem significado com a única coisa incontestável neste mundo: a força.

sábado, 14 de novembro de 2009

complexo de Rimbaud

a gente não é sério com dezessete anos. lembro que a cerveja tinha um perfume diferente, até o ar era doce...

minha poesia me ocupava completamente. qual é o melhor que se pode fazer com a juventude?

a genialidade é atraente, com certeza, mas matemática, física e outras áreas exigem anos de estudo, eu precisava ser gênio logo.

só a veia quente da expressão poética possibilitava isso, é onde existem mais nuances: um poema escrito aos sessenta anos pode ser pior que um escrito aos dezessete.

os versos eram a única forma da minha juventude significar algo por si mesma, mais que simples preparação pra uma fase posterior, adulta.

sempre tive a sensação de que os feitos incríveis são tanto mais bonitos quanto mais jovem é quem os pratica.

talvez seja pelo espanto de pensar como alguém fez em tão pouco tempo o que os outros demoram tanto pra conseguir.

também pode ser porque, no momento de feitos assim, a pessoa adquire uma improvável conjunção de qualidades: a beleza da juventude com um mérito característio só de gente mais velha e feia, que passou por anos de esforço.

essa contradição é quase afrodisíaca. o tipo do precoce é parecido com o tipo do aluno que senta no fundo, não faz nada e tira dez. todos amam os dois.

nunca vou ter paz enquanto durar o complexo de estar à frente da minha idade. ai, é muito sério a gente não ter mais dezessete anos?

implicações

então pensar o mundo é inútil, cada pessoa tem uma visão dele e pronto?

bem que você queria, mas, mesmo quando não tenho resposta pra algo, sei que a sua é pobre.

antes de falarmos em ponto de vista certo ou errado, convém adotarmos esse conceito de maior ou menor pobreza.

se penso levando em conta as variáveis x, y e z, por mais que exista o resto do alfabeto fora da minha explicação, identifico a insuficiência do seu mundinho x e y.

é um bom critério de evolução: só aceito argumentar com quem organiza uma noção de x, y, z e mais alguma letrinha que eu não tenha percebido.

por isso a filosofia, ainda que não chegue a conclusões definitivas, é fundamental, nossa única arma contra os discursinhos x/2 por aí...

deve ser mais crítica que dogmática. antes de dar respostas, sua função é perguntar, perguntar até você notar a pobreza da sua visão.

e assim ela nunca morre porque, francamente, quem pergunta sempre parece mais esperto.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

cooper mental

quando vejo pessoas fazendo cooper, rio da ironia: há tempos o corpo acumulava gordura pra resistirmos às longas caçadas, hoje só caminhamos do carro até o supermercado, mas esqueceram de avisar nossos gens.

precisamos correr em círculos nos parques pra queimar esse acúmulo que não é mais necessário e ainda assim está aqui, na barriga, como um atavismo inconveniente.

e se com o pensamento foi parecido? desenvolvemos vocabulário e operações de cognição pra resistirmos à hostilidade do ambiente, agora este não é tão ameaçador, mas esqueceram de avisar nossos neurônios.

não paramos de fazer associações, identificar igualdades, pensar, usar esse acúmulo de ferramentas que está aqui, na cabeça, precisando de exercício e, por mais que desvendemos o mundo todo, continuará precisando.

então desencane de conclusões e verdades últimas, estamos condenados a correr em círculos pra cabeça esticar as pernas, queimar gordurinhas...

o pensamento é só ginástica.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

digressão

sempre que um sino toca, sinto que algo vai acontecer.

sábado, 31 de outubro de 2009

teoria sobre teorias

chegando o dia em que tudo estivesse desvendado, queimaríamos os livros pra ninguém se matar.

afinal, os cursos precisam continuar, as livrarias precisam vender novidades, os egos precisam ser massageados...

sempre surgirão novas gerações com gente querendo produzir, romper, ganhar seu espaço, ser reconhecida.

mas e a compreensão do mundo? ah, meu bem, os neurônios nunca ligaram pra isso.

se nossa cabeça possui mesmo uma forma específica de cognição, tudo o que produzimos está limitado aos tipos de operação desta;

e se nosso vocabulário tem um número x de conceitos, as construções teóricas não podem passar de combinações entre eles.

logo, o pensamento humano é um esquema de possibilidades limitadas, um jogo de dados, de cartas.

o mérito está em ser bom jogador, usar bem aquelas que se tem na manga. já vi isso demais:

as ideias do cara estão aqui em cima, viajando, e a realidade lá embaixo, intocada. mas é um sistema muito inteligente, complexo, ele não vai abandoná-lo.

compreender o mundo é carta fora do baralho, o pensamento é uma masturbação.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

teoria - part IV

durante uma viagem que fiz, saía todo dia do hotel às oito da manhã e voltava pra almoçar uma da tarde.

foram mais de trinta dias assim, se alguém me observasse nesse interregno, poderia pensar que sabe minha rotina.

mas então acabou a folga e voltei de lá pra acordar seis da manhã, trabalhar, estudar, fazer tudo diferente.

e se a humanidade for esse alguém observando o Universo durante seus trinta e poucos dias de férias?

achamos que conhecemos sua rotina com nossos telescópios xeretando a Lua girando em torno da Terra, a Terra girando em torno do Sol e não sei mais o quê;

no entanto, quem sabe tudo isso seja apenas contingência, um padrão passageiro dentro de um todo maior e mais complexo, assim como aqueles dias de folga dentro do contexto da minha vida?

tudo bem que nosso olhar cria a lógica, mas ao menos as repetições que gravamos existem mesmo? ah, identificamos padrões de cores em bolhas prestes a estourar no dedo do menino que as soprou:

as bolhas desaparecerão, depois o menino vai crescer, depois a casa em que ele soprou as bolhas será reformada, depois o mundo em que estava a casa mudará, depois nossas repetições vão se afogar na correnteza.